quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O Condominio


Nunca fui grande barra a matemática, mas este factor não me impede de ter noção de quando ultrapasso largamente o recorde de número de tropeções diários no pavimento irregular da minha sala de estar, especialmente quando a maior parte dos mesmos tem lugar na mangueira que atravessa a divisão maior de minha casa vinda da pia da cozinha em direcção à varanda, para a descarga em formato cachoeira de águas do Ganges à base de detergente espumoso com dois andares de altura num caminho de sentido único para ir desaguar na calçada pública, que diga-se em abono da verdade, apresenta uma regularidade de piso de fazer inveja ao ladrilhador de peschinbeque que vagueou pela área pública do meu protótipo de mansão durante a respectiva fase de construção. Apesar de ser algo que me provoca graves ataques de equimoses dermatológicas e estomatites estomatológicas, não posso afirmar que fico demasiado estropiado mentalmente com o acto de tropeçar numa qualquer junta mais desviada, que em casos extremos abre verdadeiros alçapões de quase cinco centímetros, onde já perdi duas unhas dos mindinhos dos pés e dez gramas de fiambre de sola do pé, pois na maioria das vezes apenas consigo aumentar a velocidade de empranchamento para mergulho no sofá de fabrico italiano, sendo portanto um pequeno conjunto de esponjas emolduradas numa estrutura maciça de madeira de carvalho velho, onde não raras vezes, a caniche da minha mais que tudo me afaga carinhosa e involuntariamente a aterragem, deixando-me contudo a roupa cravada de pêlo encaracolado e muco nasal extraído através do seu focinho eternamente húmido e minúsculo.

Fico danado sim, quando penso que o pivôt dentário que teve morte imediata na quina da mesa de jantar, após uma queda falha de pontaria no que ao acolchoado das almofadas do sofá diz respeito, me poderá vir a ser útil no futuro, quando eu tiver que enfrentar com poucas unhas e ainda menos dentes uma solipa de madeira cozinhada pela minha donzela, que normalmente me é apresentada como sendo carne originária de um qualquer mamífero bovino exótico de estufa, conquanto eu aposte todo o marfim que me decora a cavidade oral, que o alimento que permanece inerte no prato à minha frente entre duas batatas infectadas de míldio cozidas e umas colheradas de puré, já viu muitos comboios de mercadorias passar-lhe os metálicos rodados por cima a toda a velocidade, a caminho de uma qualquer central nuclear, com os contentores na sua quase totalidade radioactivamente corroídos. Infelizmente nem o problema do pavimento de minha casa ser mais irregular que uma passagem montanhosa do Utah acabada de ser atravessada por cinco manadas de colonos mórmons, nem os dotes culinários da minha princesa, ao nível de uma dona de gruta do pré-pleistoceno acabada de descobrir os benefícios do fogo na confecção de carne de animal cuja vida havia sido ceifada há pouco tempo a toque de calhaus de xisto afiados nas carapinhas de guerreiros rivais empalados na cerca da aldeia, podem ser apresentados em reunião de condomínio para posterior resolução.

Foi assim dentro de uma dinâmica vanguardista bastante antiga, que fechei o matutino com vários meses de existência que consultava desembargadamente de pernas para o ar, enquanto sentava as minhas nádegas gémeas na loiça cerâmica sanitária, e me concentrei com o intuito de galhardamente congeminar um plano que levasse a que uma reunião de condomínio a ser albergada nos barris plásticos de azeitonas pretas galegas guardados na cave que durante o inverno são arrendados pelos moradores a sem abrigos em troca de trabalho escravo, resultasse na contratação de um pedreiro-livre e de uma nutricionista para execução de alguns trabalhos nas áreas comuns do prédio, período que eu aproveitaria para numa decisão bastante popular entre os quadros gerentes dos diferentes serviços públicos, coloca-los sob a minha alçada, se bem que a expensas dos restantes co-moradores, que muito simpaticamente não levantariam a mais pequena objecção, derivado do total desconhecimento da situação a atropelar alarvemente a fronteira da legalidade, que regra geral, ajuda sobremaneira à colaboração entre vizinhos.

Portanto muni-me de um espírito entrepeneuriano, como talvez só tenha tido uma vez na vida, quando durante certa altura da minha conturbada juventude, decidi enveredar pelo design crânio-capilar rapando o cabelo a toda a minha família nuclear enquanto estes dormiam, e por família nuclear entenda-se um casal de primos ucranianos do meu pai, nascidos e criados em Chernobyl onde o seu progenitor exercia as funções de provador de vegetais produzidos nos incandescentes campos agrícolas da localidade tragicamente famosa. Iniciei então uma quimera de ingestão a granel de fruta de formato fálico arqueado, popularizada por ter o seu nome associado a uma República sem leis nem regras e onde se diz que as donzelas não usam lingerie para encobrir as vergonhas e os machos nascem com estômagos incrivelmente esponjosos para superior absorção de néctares de elevado teor etílizante. Após a digestão, arregimentei as cascas do fruto e distribui-as irmãmente pelos degraus da escadaria comum em pedra moleanos, encardidos e coçados pelos pitons de alumínio das chuteiras que todos os condóminos fazem questão de calçar à entrada do prédio para não riscar o pavimento do mesmo com o pó que trazem da rua nos sapatos, o que muito contribuiu para a camuflagem da armadilha vegetal que viria a ter grande impacto comercial na tabela de proveitos da farmácia vizinha, através de um excepcional surto de compra de mercurocromo e betadine, isto claro para além do caso especifico do cão guia do sr. Pedro Bisgarolho que após tropeçar no último degrau de acesso às águas furtadas onde este ia roubar os garrafões do mineral inodoro e incolor aí armazenados por mim para prevenir a quebra no abastecimento de água da rede pública no Dia do Julgamento Final, rebolou até ao patim do 1º andar, onde aterrou de focinho, transformando-se numa questão de segundos de um garboso Pastor Alemão, num baboso e anão Pug com as quatro patas engessadas e uma cauda maior que o resto do corpo.

Para grande tormento de todos os moradores do meu habitáculo de uma assoalhada, inicialmente o plano não atingiu os objectivos pretendidos aquando da sua magicação no chalé cagatório, pois durante a nervosa assembleia de vizinhos ficou latente um certo ressentimento primário pelos danos corporais incutidos no canídeo, o que para mim se revelou ser uma surpresa visto já por diversas vezes terem vindo à baila reclamações acerca do porte animalesco do animal carnívoro. Felizmente alguém puxou à conversa os longos dias de baixa médica requisitados pela quase totalidade dos condóminos derivado dos estatelamentos no ascensor pedestre e em três penadas fui eleito Presidente da Administração de Condomínio, com plenos poderes definidos nos estatutos, para não só decidir acerca de qualquer questão em discussão na Assembleia, como também para fazer ataques com trovões e relâmpagos desde que os mesmos sejam emanados do sovaco, no caso dos primeiros e das mãos no caso dos segundos. Na impossibilidade de completar este último predicado, contentei-me em enojar repetidamente os meus camaradas de fogo habitacional com repetidas repetições de trovões axilares entrecortados por um odoroso trovão nalgar, bem como em aprovar a moção que se encontrava sobre as costas de um sem-abrigo enrolado num caixote de papelão de um frigorífico Ariston de classe energética D, que havia alugado um dos barris de azeitonas em troca de três horas em posição canina, vulgarmente apelidada de quatro, de modo a servir de mesa para a reunião de condóminos, e igualmente para o repasto que se seguiu.

A partir deste momento foi uma questão de aguardar pelos dois pseudo profissionais nas respectivas áreas e tratar da resolução dos meus dois problemas. Para grande surpresa minha, nenhuma das questões logrou ser apagada da minha ardósia, onde para além de manter em dia a contabilidade dos comprimidos diários que tomo contra a alergia ao giz, também são assinaladas todas as coisas que me perturbam o quotidiano. O que tristemente aconteceu foi tão só que o pedreiro-livre contratado era um agorafóbico, para quem eu e a minha mais que tudo representavam uma multidão esfomeada e em fúria a atacar uma padaria após a fornada da manhã, pelo que se recusou a pousar o que quer que fosse dos seus calcantes na nossa sala. A única pessoa que conseguimos fazer ultrapassar com sucesso a ombreira de porta da nossa casa, em madeira besuntada a cuprinol, foi a nutricionista, que para tristeza do meu aparelho digestivo era hindu, pelo que a simples menção de bife bovino da minha parte, a levou a ameaçar-me com o sacrifício de um dos meus lóbulos auditivos em oferenda a Mahatma Ghandi, o Deus da falta de proteínas animais no bucho, o que inviabilizou qualquer tipo de palpite da sua parte acerca da forma de melhorar os dotes culinários daquela com quem viverei até que a morte nos separe. No final de contas apenas consegui aproveitar a sua visita para resolver o problema de excesso de magnésio acumulado no organismo através da ingestão deliberadamente exagerada de fruta originária da bananeira.

domingo, 7 de outubro de 2012

O Teatro

À hora marcada nos cartazes colados nas paredes virgens do Bairro Social ainda por inaugurar com cuspo laganhoso recolhido durante quatro longos anos em bancos de suplentes de equipas de basebol que disputaram o Campeonato de Veteranos das Minas de Amianto, uma buzina industrial ecoa com estampido pela sala anunciando a paragem da produção operária no ramo da obliteração bilhética. Ao mesmo tempo a sala é invadida por paramédicos para socorrerem um espectador em paragem cardio-respiratória na primeira fila e um outro com surdez momentânea sentado junto a uma coluna de som. Entretanto já circulam pelo amontoado de cadeiras várias meninas em trajes de can-can segurando sobre os volumosos peitos largas bandejas pejadas de pacotes de frutos secos, pipocas e peta zetas, para conforto de estômagos cujo tamanho já só seja medido em escalas de grossura de papel cavalinho, bem como de pacotes de preservativos para todos aqueles para quem o conforto desejado seja mais de foro intimo carnal. O diminuto tamanho das bandeletes usadas à cintura como único vestuário pelas meninas de can-can. deixa patente que neste auditório será mais fácil dar sumiço ao desejo carnal do que receber troco pelo pagamento de um pacote de amendoins torrados descascados banhados em mel de abelha africanizada. 

Apagam-se as luzes, sobe o pano e em palco vislumbram-se dificilmente as figuras de Constantino e Esposa sentados no que parecem ser duas cadeiras de praia em frente a um móvel de televisão apenas adornado com um rádio de dois decks de cassete abandalhadamente poisado sobre um naperon oitentista. Uma toalha sobre o que ao longe parecem ser dois caixotes de papelão empilhados, simula uma mesa que separa ambos os seres humanos e junto da Mais-que-Tudo a silhueta de um cão salta á vista. Supostamente é o caniche do casal, mas o seu tamanho, imobilismo e ligeiro brilho ao toque da ténue luminosidade revela à audiência tratar-se de um cão-de-loiça em formato São Bernardo cuja única semelhança com o pustulento animal de colo que por vezes partilha o leito de repouso dos donos, é o tamanho do barril que traz ataviado ao pescoço. Não fosse o caso do Técnico de Adereços estar hospitalizado ainda em convalescença de um canino ataque no canil local quando fazia castings para o papel de “cão” e talvez a ordem de despedimento do mesmo já pudesse ter sido acertado com o Presidente da Companhia TRAZ, abreviação de Teatro Ridiculamente AZelha, devido a deficiente desempenho da actividade laboral, avaliação para a qual contribui sobremaneira a fita adesiva laranja florescente que se vê do último balcão, a segurar uma das patas da cadeira de Constantino. Entre pedidos de silêncio da plateia e pom-pons de chearleaders, o espectáculo tem início: 

Donzela, enquanto afaga o toutiço cerâmico do cão – nem consigo acreditar no que estou a ouvir. 

Constantino, levantando os olhos do tampo da mesa, onde crava com a ponta de um canivete suíço comprado numa loja de roupa para crianças a chave do totobola – experimenta tirar esses edredons que tens a tapar os ouvidos e talvez oiças melhor. 

Princesa, de olhar perdido num cortinado cor pastel que tapa uma suposta janela – o silêncio é constrangedor. 

Constantino, de olhar fixo, frio e penetrante na entrada dos bastidores onde o adjunto dos Adereços manobra desastradamente com a boca a sua cadeira de rodas – pois, se ao menos o cão ladrasse. 

Cai o pano sobre o primeiro acto, literalmente. O varão feito de pontas de esparguete cozidas que suporta as cortinas cede ao peso do carpinteiro que por ele trepava a fim de barrar o mesmo com molho de bolonhesa para o lubrificar à passagem das argolas. Mais tarde o relatório de autópsia do operário realizado por três conceituados chef’s irá revelar que o excesso de cozedura desproveu a massa italiana de elasticidade e sustentabilidade eliminando por completo as suspeitas que recaiam sobre a qualidade do molho de tomate, que muitos injustamente acusavam de ser apenas ketchup. A queda do pano deixa a nu a superfície felpuda que cobre o tórax de Constantino, uma vez que no momento do acidente ele se encontra a mudar de fato-macaco. Após a retirada de entulhos e restantes detritos, incluindo uma orelha lascada do bibelot animal que perece ao impacto do tecido de fabrico egípcio, sobe ao palco um espectador para de surpresa dar um concerto de gaita-de-foles. Na verdade a gaita-de-foles não tem fole, pelo que é apenas um pífaro. No final da actuação o espectador vira as espaldas ao público, dobra a pélvis e levanta o kilt. A palavra “free” aparece tatuada na nádega esquerda e a palavra “dom” revela-se pujante na nádega direita. Confirma-se que o individuo é escocês e da plateia começa a ouvir-se em uníssono desafinamento e numa muito mal conseguida tentativa de pronunciamento escocês os versos da “Auld Lang Syne”. 

Nas primeiras filas a agitação é constante perante o desejo de colocar os olhos, e quem sabe vir a conhecer Chen Guang Cheng, dissidente chinês e um dos principais responsáveis pela publicação do “Livro Vermelho” de Mao Tsé Tung, que está sentado na terceira fila, junto ao corredor para mais facilmente aceder aos lavabos e saciar os desejos da bexiga incontinente que se aloja há uns anos no seu corpo de tez amarelada, excepto nas costas onde a cor da preguiça sucumbiu ao negro do cicatrizamento de golpes de chicotes feitos a partir de folhas de listas telefónicas para não deixar marcas. Foi um destacado encadernador da gráfica onde o livro foi produzido e é reconhecido como o individuo que teve a ideia de o encadernar em capa dura para poder servir de suporte para copos de sumo de bambu em piqueniques nas montanhas de Minshan. Aproveitando a sua cegueira derivada de ter sido ele o revisor de texto de todos os “Livros Vermelhos” produzidos, a seu lado senta-se um monge budista tibetano radicado em Teerão, onde desempenha funções olheiro ao serviço das melhores madraças do país, fornecendo aconselhamento psicológico e executando testes psicotécnicos junto de escolas secundárias e algumas universidades a fim de recrutar os melhores terroristas suicidas do país. 

Entram os actores para o segundo acto, saltando à atenção o sorriso alaranjado de Constantino. De facto o confuso término do primeiro acto custou-lhe a perda dos dentes postiços, pelo que em seu lugar traz na boca um quarto de laranja, o que lhe dá um ar de quem acabou de almoçar um pote de lava fundente acabadinha de afundar em cinzas uma qualquer localidade piscatória numa ilha do Pacífico. A Mulher-da-Vida dele mantém o ar áspero de quem sabe que o melhor amigo do homem não é facilmente substituído por uma peça de faiança, por muito que esta não tenha em si motivos fálicos. A mesa também danificada na refrega foi agora substituída por um par de grades plásticas de cerveja. O burburinho que ecoa dos bastidores não deixa dúvidas de que o conteúdo das grades já foi alegremente consumido. O segundo acto tem início sem que a maior parte da audiência tenha voltado do bar, onde assistem a uma declamação de poesia islandesa, obra e graça de um norueguês nostálgico da língua original do seu país. 

Amorinho, enquanto simula um entrançar de cabelo, impossível desde que o encenador lhe rapou o cabelo à máquina zero como praxe por ter sido aceite para este papel – (silêncio) 

Constantino, levantando-se do chão após queda aparatosa por tropeção no pífaro encardido deixado para trás pelo escocês – (silêncio) 

Ligam-se todas as luzes do auditório e o rádio em cima da mesa de televisão começa a debitar bem alto sons de electricidade estática entrecortados por breves interrupções de comunicações via walkie talkie entre a governanta do hotel localizado a duzentos metros da sala de espectáculo e uma sua subalterna. Entre contagens de peúgas e camisas é perceptível que se trata da lista de roupas a entregar na lavandaria. 

Constantino, limpando o pó das calças, cujo padrão xadrez azul e laranja fica agora visível a todos os que pagaram por um lugar sentado – até que enfim o piquete da companhia eléctrica resolveu a avaria. Desliga o rádio e as luzes e vamos deitar. 

Cai um toalhete com aroma a mentol sobre o segundo e último acto. A Donzelinha Linda continua em palco, onde se deixou dormir encostada a um dos pilares em papier maché que segura a estrutura onde ficou colocada a Orquestra Muda que muito contribuiu para o silêncio constantemente afinado durante o espectáculo. Constantino em três passos coloca-se na frente do palco e faz uma vénia às numerosas cadeiras já vazias após a deserção dos seus prévios ocupantes em direcção ao bar onde estão a oferecer cálices de natas azedas sobrantes dos galões tirados ao intervalo. O espectáculo terá excelentes criticas com toda a certeza.

terça-feira, 10 de abril de 2012

O Troféu


Não é de grande monta a espectacularidade da conquista, nem sequer suficientemente importante para ser brindada com o derramamento daquele liquido borbulhoso que me foi ofertado no casamento do primo da minha querida esposa como sendo algo parecido a champagne francês, mas cujo teor de contrafacção ficou convenientemente visível por o gargalo da garrafa ser vedado com uma rolha de papel de alumínio cilíndrica enrolada em pelicula aderente culinária e ao centro do vasilhame de vidro constar um rótulo publicitando sumo de goiaba Islandês. Mas pronto, não há como negar, o troféu foi ganho com todo o mérito da minha parte e só esse singelo facto já lhe confere o estatuto de divina importância para a minha pessoa, digno de ser fiel depositário da minha saliva com hálito matinal nauseabundo, aquando do oscular diário e obrigatório à peça em questão. 

É certo que apesar de ser o meu nome que foi gravado a cinzel na chaparia de latão colada na fachada da Taça por um menor europeu escravizado, no porão de um barco de pavilhão guatemalteco em águas internacionais no Oceano Pacífico, mas confere-me a obrigação de confessar que o mais próximo que estive de participar na refrega da qual provém o único troféu pertencente a um Ser Humano que adorna o espaço delimitado por quatro paredes que é o meu paraíso matrimonial, foi cerca de 200 metros, quando estacionei a moto 4 gentilmente pedida por empréstimo com recurso a arma branca, mais especificamente um pacote de leite extra cálcio pelo meu passageiro, a fim de o deixar a ele, o real concorrente da disputa, em frente ao Auditório Municipal da Terra, que tem este nome por ser construído com recurso exclusivo a terra, ou neste caso específico, areia da praia ensopada pela ondulação pujante de salitre, o que já resultou em duas ou três derrocadas da nave principal, que por mera coincidência é a única, felizmente sem feridos a registar, durante a época das monções, que é como a malta aqui se refere ao período entre as três e as quatro da madrugada, ou em português simples “hora de funcionamento da rega automática da relva do quintal do Sr. Matias”.

Não que seja um facto de extrema importância, mas o olhar assassino da minha mais que tudo obriga-me a ressalvar aqui que, por muito que este seja o único titulo a constar na lista de conquistas do casal, as vitórias não são factos exclusivos dos humanos nesta casa, visto ainda estar em exposição desde há quatro anos a esta parte, no topo do nosso televisor o troféu com que foi agraciado o nosso caniche por parte da Associação CARAPINHA “Cabeças Rapadas Por Indivíduos Negros do Huambo Angolano”, que se dedica à recolha de cabelos humanos ou animais para a fabricação de capachinhos destinados a serem oferecidos a idosos cuja calvície ficou exposta após terem sido vitimas de roubo das suas cabeleiras postiças em bairros violentos e degradados do Huambo, por parte de malfeitores que posteriormente as utilizavam para praticar crimes hediondos como encher chinelos de enfiar com pasta de dentes ou espuma de barbear, deixando para trás folículos capilares que futuramente iriam incriminar os reais donos das cabeleiras. Assim e graças ao meu perspicaz varrimento de pêlos caninos do chão flutuante riscado por não menos caninas unhas, a oferta de sete sacas de serapilheira atabafadas de pêlos brancos e encaracolados, rendeu ao elemento quadrúpede do matrimónio um fio tecido em polpa de avelã da Patagónia com uma pequena inscrição dizendo “Eterno Agradecimento dos Angolanos Albinos Carecas”. É importante que se refira que a espessura e tamanho diminuto do troféu, se revelou deveras útil quando trocamos o velho televisor de estilo sessentista por um moderno plasma flat screen, pois de outra forma ele não caberia no topo da caixinha mágica.

Reportando novamente à distinção que agracia a sala de estar de minha casa, onde serve igualmente de suporte para porta-chaves, bonés e ocasionalmente paus de incenso em chamas piromaníacas a fim de estropiar a divisão do cheiro nauseabundo dos cozinhados asiáticos do incestuoso casal pré-adolescente que habita em segredo o apartamento abaixo do meu, esta foi brilhantemente acoplada ao meu currículo mediante uma participação bem-sucedida num torneio de Soletragem de Palavras Nativas Australianas. Levantando um pouco do véu que cobre insidiosa e transparentemente o segredo que rodeia o referido troféu, revelo que na verdade não foi a minha excelsa pessoa a competir pela glória no torneio organizado pela associação de amigos da minha rua, da qual sou sócio desde sempre, sem contudo alguma vez ter participado nas actividades sociais por ela organizadas, tais como reuniões, confraternizações ou combates de escaravelhos em caixas de sapatos tamanho 24, para que não haja muito espaço de fuga para o insecto menos corajoso, por muito que tenha pago o fecho da minha marquise com o dinheiro ganho a apostar no escaravelho propriedade do Sr. Santiago Lencastre e Sepúlveda, pois só nós dois sabemos que o insecto apresentado como escaravelho hindu das estepes Siberianas é efectivamente um escorpião venenoso do Sahara que foi outrora pertença de um não menos outrora, famoso negociante de riquexós na capital do Império Bizantino, portanto dois quarteirões a norte de minha casa, e que faleceu exactamente devido a uma picada do temido bicharoco, sendo que na altura se pensou que o individuo havia sucumbido às feridas infligidas por um ataque de triciclo a dois tempos, portanto tempo parado e tempo em movimento, conduzido por um recém-nascido em plena crise de intolerância láctea e em excesso de velocidade, tal era o tamanho das lacerações que o insecto do deserto lhe havia deixado nos tendões rotulianos e nas luvas de borracha que na altura utilizava pois encontrava-se a fazer a limpeza a seco do roupão de cabedal com que o referido assassino entrava em ringue.

Ora, a fim de me declarar vencedor de uma modalidade que eu não domino minimamente, optei por fazer uso da minha total abstinência de travar conhecimento com os membros da associação, para numa jogada de mestre digna de figurar nos anais da história do desenrascanço desportivo anglo-saxónico, convidar o dono de uma loja especializada em brinquedos sexuais da Oceânia com o sugestivo nome de “Antilopinus” para que este participasse em meu nome. Desta forma e apenas em troca da compra de algo que, mal-grado a lâmina em inox, afiada de um lado e dentada do outro, embainhada num invólucro de cabedal e encabeçada por uma pega em madeira, me foi garantido não ser uma catana, mas apenas um “persuasor sexual de mulheres”, garanti que o Sr. Ualparri Uarramunga seria efectivamente um eu de tez ligeiramente mais escura, o que não seria problema derivado da numerosa comunidade de dioptrias indígenas que habitavam ambos os globos oculares da presidente do júri, o que motivava que aquando das suas passeatas matinais, os invisuais que se dirigiam para a fábrica de bolas de espelhos para discotecas contigua ao nosso bairro onde laboravam como cobaias em testes de luminosidade das vidraças reflectoras, terem que se desviar dela no passeio a fim de não serem abalroados. Os atropelamentos tornaram-se de tal forma frequentes que os administradores da fábrica decidiram retirar dos seguros as alíneas que referiam ser os mesmos vigentes durante a viagem casa/trabalho/casa, até porque constava já haver um negócio paralelo de indivíduos com visão imaculada que cobravam singelos honorários para distrair os cães guias com recurso a bifes do acém e da alcatra, para que fosse impossível impedir o choque acidental entre a senhora e o invisual, para que este pudesse, não só meter baixa por invalidez, como também ser ressarcido pela entidade seguradora numa soma que lhe possibilitaria comprar, no mínimo, duas embalagens das sempre indispensáveis coleiras anti pulgas para os canídeos fielmente treinados.

No final de contas, a estratégia surtiu efeito, por muito que o Sr. Uarramunga não tenha sido capaz de soletrar uma única palavra, limitando-se a repetir à exaustão o seu nome, visto ser essa a única resposta que era capaz de dar a uma pergunta pronunciada numa língua que não a aborígene. O facto de ele ter aportado ao nosso país há menos de uma semana não me foi facultado, mas revelou-se um pormenor sem importância, pois a peleja não despertou um mínimo de interesse na comunidade local e ele foi mesmo o único a responder à chamada, tendo arrebatado o título ao fim de quinze minutos de silêncio por parte do júri, entrecortado por urros seus, vociferando o seu nome de baptismo. Poder-se-ia pensar que o facto de eu não ter participado activamente na conquista do esbelto objecto retiraria valor sentimental ao mesmo mas isto não corresponde à verdade, pois fui eu o mentor da recuperação do item cinco dias apenas após a minha esposa o ter depositado honrosa e solenemente escondido por baixo dos restos bolorentos de um molho de escabeche confeccionado seis meses antes, dentro do caixote do lixo. O resgate não foi feito com pompa nem com circunstância visto ter sido necessário utilizar a última meia dúzia de dias de férias para chafurdar insistentemente na lixeira municipal com um detector de metais, até finalmente o encontrar. Poderia ter sido bem mais rápido a recuperar o troféu se em vez de um detector de metais tivesse recorrido a um homónimo de PVC, afinal de contas a matéria-prima na qual ele tinha sido estoicamente moldado. Apenas tenho que felicitar quem o pintou de dourado de forma tão perfeita que me induziu ao engano, por muito que a minha parceira matrimonial já tivesse levantado dúvidas pelo constante escamar da película colorida, que deixava a descoberto a matéria azul acinzentada peculiarmente utilizada na produção de material de canalização para escoamento de águas sépticas.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O Aniversário


25 de Dezembro – Hoje a minha sogra faz anos e é Natal. Na minha cabeça não há forma de não pensar que existe uma forte relação cósmica entre estes dois acontecimentos, especialmente se tivermos em atenção que isto é algo que se repete todos os anos, o que a mim me causa admiração pois esta altura do ano é vista como uma Quadra Santa e este é o último nome que me passa pela cabeça chamar ao velho bisonte. A festa de aniversário está marcada para amanhã pois a jarreta quer aproveitar a greve de enfermeiros e auxiliares do lar para proporcionar uma tarde de pândega aos seus colegas de vazadouro. Infelizmente, o convite a solicitar a minha presença já me foi entregue, mal grado eu ter recusado por três vezes a encomenda. Acabei por receber um telefonema anónimo onde umas cordas vocais femininas desgastadas por cerca de 80 anos de tagarelice inútil e de gritaria pseudo-histérica, me ameaçavam com a possibilidade de ser feito um telefonema para uma rádio local a pedir a transmissão em ondas hertzianas de baladas de cariz piroso-amoroso em meu nome.

Após ler que a festa teria lugar no pavilhão gimnodesportivo do lar onde há uns anos eu e a minha mais que tudo a depositamos, não pude deixar de soltar um esgar irónico, seguido de um esgar de dor, pois enquanto lia o convite telegráfico que apenas dizia “estás convidado. A festa é no gimnodesportivo do lar. Haverá rastreio do cancro da próstata”, deixei que o fogo que eu tinha ateado ao mesmo convite me atingisse o polegar direito, mesmo apesar de o papel estar seguro pela minha mão esquerda. Coloco a hipótese de a gasolina em que embebi o convite poder ser responsável pelo tamanho das labaredas, mas por outro lado também é possível que eu tenha abusado um pouco no napalm. Sempre ouvi dizer que para fazer uma folha A4 são necessárias duas árvores, mas reparando que o convite havia sido impresso em papel cavalinho de gramagem 120, preferi não arriscar e utilizei a quantidade de napalm indicada para dez árvores, e mais um pouco. No fim de contas, tudo resultou como esperado, tendo o referido papel ficado absolutamente incinerado, tal como a porta da minha cozinha, o que deverá ser do agrado da minha princesa, uma vez que ela já há um meses que me pedia para trocar aquela porta, derivado do elevadíssimo número de vezes em que a mesma se havia fechado e trancado misteriosamente impossibilitando a sua cadela de sair da cozinha e ir à caixa de areia fazer as suas necessidades. Confesso que para mim o mistério da porta que fecha e tranca sozinha não existia, até porque tenho sempre bem presente na memória as coisas que eu faço às escondidas.

Após reflectir sobre o assunto que prometia incomodar a minha pacata vida de desempregado, por pelo menos uma tarde, decidi-me a comparecer na festa de aniversário, até porque o facto de esta não ser no quarto da ex. mulher do meu já falecido sogro, implicava que ela não iria estar presente, uma vez que se encontrava imobilizada na cama. Efectivamente, esta impossibilidade de se levantar, nada tinha a ver com problemas físicos, apenas resultava de uma aula de introdução às tapeçarias de Arraiolos promovida pela associação de solidariedade, vulgarmente conhecida por INAPTOS, sigla de INcontinência AParece a TOdas as Sogras, no decorrer da qual a excelsa mãe da minha mulher conseguiu a habilidade de se bordar à cama. Por acaso, na foto que foi publicada no site da INAPTOS, é visível que o ponto de Arraiolos está bem repuxado sim senhores e que os motivos florais da tapeçaria em que se transformou a progenitora da minha esposa em muito beneficiam o aspecto físico da velha carcaça. Uma vez mais ficou patente que não há nada que umas orquídeas envoltas em arabescos não possam embelezar, não obstante a desfocagem da cara da mulher na foto também ter ajudado à tarefa se bem que pecou por escassa.

De facto, o incidente já aconteceu há umas boas três semanas, mas ainda não foi resolvido. No dia da aula de Arraiolos, a professora bem tentou soltá-la, mas não foi bem-sucedida pois ela era apenas uma substituta da professora especializada em Arraiolos que se havia ausentado nesse dia para comparecer a um workshop de rendas de bilros. Infelizmente para a enferma idosa, que a acreditar no mau feitio que conserva, não estará tão enferma quanto seria universalmente desejado, a professora substituta tinha tirado a especialidade em bordados de Castelo Branco, e apenas tinha preparado a aula com uma rápida leitura na diagonal do manual de execução do ponto de Arraiolos, sendo que não houve tempo para aprender a desfazer os mesmos. Entretanto fora contactada a Associação de Tapeçarias e Naperons À Base de Lanifícios e Inertes, presidida pela D. Arminda, disléxica que havia eternizado a sigla da associação como TALIBAN, a fim de ser enviado um piquete de emergência. Para azar daquela cujo hobby é infernizar a minha vida e sorte de todos os que a rodeiam, o único piquete que estava ao serviço naquele dia na TALIBAN era o piquete de greve, que se encontrava de plantão devido a um protesto contra o elevado preço que os amoladores de agulhas estavam a cobrar pelo indispensável serviço. Quando contactados, levantaram a tarja que dizia “Uma Agulha Romba Nem Serve Para Vos Partir a Tromba” e ficaram de dar um saltinho ao lar dentro de dois meses, visto ser essa a duração prevista da greve. Recordo bem que na altura lhes propor que prolongassem a greve por mais quatro anos, mas fui informado que tal seria impossível pois tinham uma encomenda de lã da Índia prevista para chegar em Outubro e que se não fosse logo aplicada em serapilheira rapidamente se deterioraria. A tristeza patente na minha face foi de tal forma visível que eles se retiraram com a promessa de que a fim de empatarem tempo, iriam proceder à abertura de um Concurso Público para contratação de uma técnica especializada em casos destes. No geral, apontavam para seis a sete meses para a conclusão da libertação da mulher que eu tinha herdado da minha esposa, através do casamento.

26 de Dezembro – Hoje é o dia da festa de aniversário do ogre que deu à luz a minha esbelta esposa e as coisas começaram logo a correr mal. Uma vez mais desconfio que há relacionamento cósmico-tântrico entre os factos anteriormente mencionados. Logo ao sair de casa deparei com as minhas sapatilhas de rodinhas assentes em quatro tijolos. Sem surpresa descobri que me roubaram as rodinhas que haviam sido recauchutadas há pouco tempo, logo depois de eu ter capotado para uma sarjeta por ter perdido a aderência ao piso quando atravessava uma estrada alagada de cerveja que havia escorrido de dentro de um barril na coleira de um São Bernardo. Não querendo aqui entrar em acusações estéreis, a verdade é que, nem o São Bernardo tinha licença para o transporte de bebidas alcoólicas, nem a mesma seguir em vasilhame em inox como está regulamentado.

Este ligeiro imprevisto custou-me a chegada tardia ao palco da festa, que só por acaso, até já tinha finado. Segundo relatos deixados escritos nas paredes por alguns presentes a coisa não tinha corrido pelo melhor, uma vez que o caquéctico ser tinha mandado vir um rabino para a cerimónia do aniversário, mesmo apesar de poucas semanas antes se ter convertido ao islamismo. Também facto que causou estranheza foi o de a mesa de carnes frias não incluir carne de vaca, segundo a imobilizada, por motivos religiosos. A título de curiosidade, dizem as más-línguas que as carnes frias tinham sido acabadas de confeccionar quando chegaram à mesa, o que levou a que diversos idosos tenham ficado cegos uma vez que o calor emanado pelos bifes lhes embaciou as lentes garrafais dos óculos, o que deu azo a um divórcio visto que a Sra. Dona Marília, ao ver o seu marido cair de quatro agarrado à saia da jovem e esbelta empregada da empresa de catering meteu baixa da sua crónica dor de cabeça e enfardou um valente chocho no rabino. Só alguns minutos mais tarde é que a precipitada senhora reparou que a queda do seu marido havia sido motivada pela quebra do eixo da roda traseira da sua cadeira de rodas, que finalmente havia vergado a anos a fio de enferrujamento. Infelizmente para o pobre rabino, já nada havia a fazer pelo seu casamento pois se é verdade que fora a Sra. Dona Marília a beija-lo, também não é menos verdade que quem levantou a saia à septuagenária foi mesmo o clérigo e a sua esposa estava demasiado longe do calor das carnes frias para não ver aquele desplante.

Felizmente para mim, à hora a que cheguei ao local da festa, apenas lá estava o curador do edifício, que muito gentilmente me convidou para uma visita guiada pela história do mesmo. Foi assim desta forma que fiquei a saber que o projecto do edifício era de origem japonesa, pelo que toda a estrutura do mesmo era propositadamente resistente a sismos, algo deveras útil se tivermos em conta que mais de sessenta por cento da população do lar era acometida pela doença de Parkinson e que destes, quase quarenta por cento sofriam de alzheimer, o que fazia com que frequentemente se esquecessem dos apelos dos funcionários para que não se encostassem às paredes. Curiosamente todas estas explicações foram-me dadas pelo meu interlocutor sem que, por uma vez que fosse, ele se tivesse levantado da cadeira. Parece que sempre houve rastreio do cancro da próstata e pelos vistos era de presença obrigatória.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O Lema

Saí a correr de casa, apenas com um saco de espinafres a tiracolo e uma mochila com a roupa suja que já não cabia no tanque, para entregar no Exército de Salvação, em direcção à minha sede de campanha, que estava instalada no bunker nuclear da cidade, o qual havia sido embargado pela Câmara local três dias após o inicio da sua construção devido a diversos problemas estruturais, entre os quais o facto de não estar enterrado na crosta terrestre, a coincidência de o local da sua construção já ter sido previamente ocupado pelo buraco nº 7 do Golf Course local e também porque o único “betão” que fora aplicado na sua construção ser o próprio proprietário do edifício, um minhoto paranóico natural de Tel Havive, que havia sido baptizado com esse apelido por, desde pequeno, pentear o cabelo à tigela e vestir calças à meia canela. Infelizmente para ele, ao segundo dia de trabalhos foi atropelado pelo buggy das sandes que havia ficado destravado no tee de partida no topo da colina, onde um palestiniano de kilt fúchsia e branco ameaçava detonar os balões de água que trazia à cintura se o condutor do buggy não lhe providenciasse uma gelatina de Três Sabores envolta em leite-creme. Após uma autópsia que revelou como causa de morte sufoco por engasgo com um chumbo de dente que se havia soltado após o impacto da viatura eléctrica, o óbito foi declarado por um estudante de medicina dentária que trabalhava no campo de golfe como limpa bolas durante as férias do verão, seguindo-se o cumprimento do último desejo do Betão que consistia em ser enterrado no seu bunker, tornando-se o elemento mais sólido do edifício e também, o único a quem um ataque nuclear não iria atingir pois apenas ele fazia companhia às raízes da vegetação no subsolo terrestre.

Ali escondido na escuridão do bunker, onde apenas conseguia enxergar o meu próprio nariz durante cerca de dez minutos, que era a duração da energia solar na estrela fosforescente colada no tecto do edifício, recapitulei o momento do anuncio da decisão à minha esposa, que malgrado ter aceitado muito bem a noticia, me custou três divórcios e outros tantos casamentos com ela, correndo o risco de este número poder aumentar no exacto momento em que ela despertar do seu quarto coma motivado pelo impacto do seu esbelto crânio com o pavimento lustroso da nossa habitação após o seu quarto desmaio relacionado com o facto de eu lhe ter comunicado, também pela quarta vez, a minha famigerada decisão. É certo que poderia já ter optado por lhe comunicar a boa nova quando ela estivesse confortavelmente deitada no nosso leito matrimonial, mas o medo de a decisão de divórcio ser, desta feita, irreversível, impede-me de o fazer e agora apenas me limitarei a entabular a dolorosa conversa quando ela se encontrar com a caniche ao colo, na eterna esperança de a ver prostrada em cima do abominável animal, poupando-me assim a vergonha de ter que percorrer a distancia entre a loja de comida para animais e a minha casa com um pacote de quinze quilos de comida para peixe, pois o bichano ainda não tem o seu “eu” perfeitamente identificado e nos últimos tempos desenvolveu uma paixoneta de adolescente por qualquer animal de guelras e escamas que a minha donzela coloque na tábua de cortar, a fim de preparar o nosso repasto.

Foi embrenhado no meio destes pensamentos que choquei de frente contra o primeiro grande desafio eleitoral, a que tinha que corresponder com a mesma solicitude e pragmatismo que aplico aos momentos épicos da minha vida quotidiana, como a árdua opção de abandonar o uso da vulgar cueca de pano aparrada à virilha e dar a exclusividade da protecção genital aos boxers de tecido elástico, mas acetinado, mais condizentes com as dinâmicas dimensionais e de ocupação de espaço na zona, decisão que me levou alguns anos a acolher mas a que acabei por aceder de livre vontade após conselho paroquial. Agora nem o ai-Jesus dos acólitos do bairro me poderia valer, pois precisava limpar o caruncho da minha massa encefálica e engendrar um lema que levasse os cerca de oito sócios do Meu Clube a colocar a cruz mágica em frente ao meu nome, em vez de pedirem ao Sr. Cruz mais um saco de pevides para verem o próximo jogo de um clube sem Direcção, algo que não havia impedido a sua subsistência desde a fundação, onde já na altura, a votação magna havia sido substituída por uma garrafa de pirolito Bilas e umas azeitonas britadas.

Já dizia o meu colega de carteira do 7º ano, do alto de toda a sua sapiência de professor catedrático da universidade do encosta ao balcão taberneiro, que “mente sã e corpo são ajudam a aguentar a alcoolização”. Dizia-o exibindo, com o mesmo orgulho que um militar graduado expõe a sua distinção da Ordem de Torre e Espada, a folha A4 onde um médico de charuto na boca e um dedal de moscatel destilado numas águas furtadas num canto recôndito da Beira Baixa raiana na mão, havia escarrapachado o severo diagnóstico de cirrose terminal, que lhe cortava a direito e sem anestesia os horizontes do futuro, ao ponto de o ter levado a contrair matrimónio aos catorze anos para poder procriar um herdeiro, a quem contava vir um dia a confiar aquele pedaço de papel, já emoldurado, que fazia dele o Casanova das filhas dos empresários do ramo da produção e contrabando de bebidas à base de cereais e legumes excedentes das quotas de produção impostas pela UE, instigadas pelos seus progenitores a trazerem para casa alguém que estaria sempre mais preocupado em lhes deixar todas as suas posses em troca de um mata-bicho hortofrutícola de alto teor etílico, do que em lhes dar a santa machadada nas regalias hereditárias das suas descendentes, sendo que no que tocava à Guerra das Espirituosas, como viria a ser chamada pelas autoridades, um hímen tinha o mesmo valor que um soldado raso na batalha de La Lys.

Na verdade durante a minha juventude nunca entendi o verdadeiro significado da expressão utilizada até à exaustão pelo bom do Meio-Fígado, como era pomposa e carinhosamente tratado por todos aqueles, que como eu, tinham prazer em partilhar com ele uma partida de Malha no Bicho, mesmo considerando que a partir da segunda semana de aulas o famigerado jogo popular foi rebaptizado com o nome de Malha no Meio -Fígado, o que reflectia a afeição que todos nós tínhamos por ele, a ponto de baptizarmos uma das nossas diversões supremas com o seu nome. A verdadeira compreensão da dimensão das palavras dele só me chegou já adulto e quase literato, na corrida a algo mais que a presidência do Meu Clube, algo como um espaço no betão coçado da bancada central, onde pudesse em fim ver ao perto as diatribes do conjunto do meu coração e poder ofender com aproposito toda a dignidade do árbitro da partida. 

Para mal dos meus pecados, a devida compreensão do significado da expressão utilizada pelo jovem alcoólatra abateu-se sobre a minha cabeça à mesma velocidade que a calvície, apesar de não ter a mesma relação que esta tinha com a exposição a uma garrafa de vodka, com níveis mais elevados de urânio do que o autocarro de transporte de operários das minas da Urgeiriça ao fim de um dia de trabalho, que havia sido importada da Ucrânia por um siciliano a quem tinha sido adjudicada em concurso público o aluguer da casa de banho de serviço da garagem do nosso prédio, onde ele gere um, muito bem-sucedido, negócio de desmembramento e ocultação de cadáveres. Definitivamente só entendi o erro de análise que havia feito ao adágio do Meio-Fígado após acabar de o adoptar e escrever, como lema de campanha, em 10.000 panfletos artesanais, feitos nas costas de bilhetes do comboio-fantasma que haviam sido adquiridos há uns cinco anos, para proporcionar novas experiências à minha sogra, especialmente a sensação de falecimento após sentir o braço esquerdo dormente e uma leve picada no local onde, na altura, eu pensava existir algum órgão provocador de batimento cardíaco, o que mais tarde se veio a perceber ser um erro de julgamento da minha parte, pois todo o dinheiro investido na diversão apenas resultou num hediondo desgrenhamento capilar no toutiço da idosa, que a transformou na maior atracção do dito comboio-fantasma, sem que contudo eu obtivesse algum lucro fiduciário do acontecimento.

Agora, cometido o enésimo erro da minha vida, restava-me esperar que a elevada taxa de analfabetismo na massa associada do Meu Clube facilitasse a minha subida ao poleiro, até porque eu lá estaria à boca da urna a garantir-lhes que a colocação da cruz no quadrado em frente do meu nome seria a decisão que mais facilmente lhes garantiria o alivio do aperto de pescoço que as minhas mãos lhe estariam a facultar, bastando-lhes que o dito rabisco fosse igual ao que haviam feito no respectivo bilhete de identidade.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O Clube

A ideia surgiu-me enquanto tentava fumar um penso de nicotina arrancado directamente do dorso amarelado pelo fumo da cadela da minha princesa, após ter entornado uma tigela de uns, normalmente, muito voluntariosos mas absolutamente intragáveis weetabix sobre o maço de tabaco numa noite de insónia, originada pelo facto de já ter a barba tão grande que me chega aos sovacos e faz cócegas a noite toda.

Acima de tudo o que me levou a avançar com a candidatura à presidência do Meu Clube foi o simples facto de já não recordar sequer as cores do equipamento do mesmo, pois nos últimos quatro anos, o meu bilhete anual tem sido para um lugar que fica situado por detrás do marcador manual em tabopan infiltrado por humidades e formigas, que a avaliar pelos estragos, serão descendentes das corrosivas térmitas africanas, onde o Sr. Teófilo, rapaz nos seus quarenta e poucos anos, portador de obesidade mórbida e coleccionador de uma vastidão de flagelos de índole física e mental, vai actualizando o resultado dos jogos, muito diligentemente mas com algum atraso motivado pela sua dificuldade de locomoção, que aliada ao facto dos jogadores visitados serem tão prendados técnico-tacticamente quanto um gorila paralítico acabado de importar dos Montes Virunga, faz com que variadas vezes tenha que ficar a actualizar resultados até duas ou três horas após o término dos prélios, o que levou a direcção da agremiação desportiva a instalar um trolley para confecção de cachorros quentes junto ao marcador para que o rapaz se possa ir alimentando durante a empreitada, pois a última coisa que se precisa é de um funcionário que sofra de subnutrição.

Dizem as mentes que fazem do boato uma profissão tão respeitada e admirada quanto um clérigo num bas-fond de alterne, que a velocidade que o Sr. Teófilo aplica na actualização do marcador é exactamente a mesma que ele aplicava nos seus idos anos de futebolista do Meu Clube, onde continua a ser recordado como o maior guarda-redes a sentar os seus jerrycans de celulite, vulgarmente apelidados de nádegas, no banco de suplentes do clube, isto quando o caminho balneário/banco era ainda feito em tempo útil, portanto aquele compreendido entre o apito inicial e o silvo final do árbitro, algo nunca conseguido nos primeiros sete jogos após as festividades do Natal e Ano Novo, por razões nunca explicadas, mas que certamente terão estado na origem da sua proibição de comparecer nos jantares de Natal da equipa.
Felizmente para o Teófilo que, apesar de ter maior entendimento de modalidades como o corredor da morte ou ténis-à-parede do que de futebol, é quem me vai relatando as incidências das partidas que o Meu Clube disputa no seu quase-recinto desportivo, os últimos plantéis da equipa da qual sou sócio, têm sido constituídos por jogadores que denotam a mesma propensão para o jogo do século que o pobre Teófilo calçado com havaianas, uma algália numa mão e um frasco de soro na outra. Desta forma o bom do Teófilo apenas tem que actualizar o marcador com os golos adversários, bastando-lhe para isso vestir uma t-shirt numerada a cada golo adversário, até porque ele tem metade do tamanho do placard, sendo que uma estratégica colocação no lado a bombordo do dito marcador, usualmente reservado ao visitante é suficiente para informar a marcha do resultado.

Apesar da capacidade exibicional da equipa do Meu Clube andar por níveis mais baixos que um termómetro na Sibéria Setentrional, na última temporada o bom do Teófilo viu a sua destreza física e porque não dize-lo, mental, ser colocada à prova por duas vezes, nas quais foi obrigado a alterar a numeração no marcador da minha equipa. Isto sucedeu nas duas vezes em que o adversário chegou à dezena de golos e, visto ele só ter t-shirts até ao número 9, optou por assinalar o algarismo das unidades em si próprio, aproveitando o porte que Deus e vinte e duas tortas de Azeitão por dia lhe deram, e colocar o algarismo das dezenas ao espaço habitado por um casal de cegonhas, que nos tempos áureos da equipa da casa estava reservado para a exposição do número de tentos facturados pelos seus outrora prolíferos atacantes.

A decisão de partir para a candidatura única à presidência do Meu Clube é o lado mais simples da mesma, mais exigente será constituir uma lista, isto tendo em conta que terei que a constituir a partir de um grupo de indivíduos habituais frequentadores de uma comissão de linchamento da minha pessoa, cuja primeira reunião se deu no dia em que, devido ao repentino aparecimento de uma flash-mob no pavimento betuminoso da estrada de acesso ao estádio do Meu Clube, em dia de jogo, fui obrigado a guinar repentinamente a direcção da minha bicicleta, acertando em cheio com a antena do auto-rádio no olho direito de Adelmiro, o sumo-pontifice da nossa equipa na arte de abanar as redes adversárias e último individuo presente na memória colectiva das bancadas a facturar um tento sem ser na sua baliza, já lá vão quase sete anos. Só a rápida acção de um oftalmologista impediu o fim prematuro da carreira desportiva do atacante, mesmo que actualmente ele seja obrigado a entrar em campo com óculos de mergulho graduados. Pior fiquei eu que nunca mais consegui sintonizar o meu auto-radio em FM, estando desde então confinado a rádios de qualidade mais que duvidosa em emissão AM. Naquele dia, toda a massa adepta me considerou culpado pela goleada sofrida pela equipa da terra, pois desfalquei-a do seu melhor elemento, ou pelo menos, daquele que menos erros comete durante o exercício da sua função de avançado, uma vez que só muito esporadicamente a sua intervenção na partida ultrapassa a escolha de campo antes do apito inicial, tal é a falta de caudal ofensivo da turma da casa.

A decisão é difícil, mas para reduzir o número de candidatos a integrar a lista, tomei a decisão mais complicada do meu ainda curto reinado de candidato e exclui logo à partida todos os responsáveis pelo arremesso de archotes em chamas para dentro da casa dos meus vizinhos do rés-do-chão. Estes seriam destinados ao meu lar, mas o latido voraz, assassino e intimidador da caniche da minha esposa fez a turba recuar de medo, pelo que os ditos archotes foram lançados a tal distância que a força de deslocamento deles foi incapaz de superar a força da gravidade e o que chegou a ser visto a caminho do terceiro andar em que resido, foi posteriormente recolhido pelos bombeiros sapadores no incinerado rés-do-chão dos meus colegas de condomínio.

sábado, 25 de junho de 2011

Os Exercicios

Não sou um tipo muito dado a exercícios para além do habitual abrir e fechar de boca solidário em frente ao aquário da sala, apesar de estar habituado a correr em dias de maior ventania, sendo que nem sempre corro para o lado que pretendo. Digamos que a fronteira da força de vontade de alguém que, pesa sessenta quilos nos dias em que acorda com a neurose do coleccionismo de cascalho, deve andar à volta de rajadas de quarenta a cinquenta quilómetros/hora, isto, claro enquanto as pernas não vergam à força dos quinze quilos de calhaus acumulados nos bolsos. É que a força de vontade de um indivíduo estatelado no passeio na posição de frango assado só aparece esporadicamente quando um jardineiro esquece a enxada com o cabo em posição erecta, como se houvesse visto um sacho em ferro galvanizado e cromado, bem no meio da calçada. Em todo o resto do caminho resta-nos esperar que aquele workshop intensivo de pombo-correio na Feira do Campo do Cachopo tenha valido a pena para que se possa regressar a casa. Já que mais não seja, o anel identificativo na pata vai ajudar muito no momento de pedir instruções.


Como já me havia avisado o veterinário da bichana da minha mulher, ou como diz na porta dele, o Sr. Ginecologista, todo o exercício másculo não se deve estar dependente de três factores tão subjectivos como são a força da natureza, a parca memória do peixe comprado na Loja da Ana Teresa ou a posição de missionário, que essa está destinada à reza. Segundo ele, no futuro eu poderia vir a sofrer de atrofia muscular, para além da que já se manifesta a nível cerebral, especialmente nos primeiros 5 minutos da visita ao Lar para ver a minha sogra, até porque nos restantes 2 minutos em que me aguento no quarto já só estou a pensar se a velha iria espumar muito da boca se, acidentalmente, uma das minhas mãos lhe colocasse uma caixa inteira de Lorazepam na boca, ao mesmo tempo que a outra a obrigava a engolir o apetitoso farnel de fabrico laboratorial. Na verdade, ela já poucas vezes me dirige a palavra e eu noto que a nossa relação não é a mesma desde que lhe ofereci, pelos anos, o livro “Anita e a Injecção Letal”.


Ainda na abalizada e muito respeitosa opinião do homem a quem eu deixo metade do meu subsidio para me garantir que eu não ando a brincar em parques de diversões com baloiços enferrujados, a atrofia muscular poderia vir a resultar em momentâneas perdas de força nos membros inferiores e limitações ao nível de reflexologia, dando-me de barato uma bestial desculpa para utilizar todas as manhãs em que a minha donzela me encontra prostrado de nariz e pêlos do peito no mármore do patamar do nosso andar, após uma bela noite regada com o mais carrascão néctar de cereja e morangos, mesmo apesar de ela nunca acreditar, até porque os dentes tingidos a vermelho são os mais perfeitos delatores de uma noite de borga no Aloxi Bar, local onde experienciei os melhores momentos de atrofia muscular a nível de membros inferiores e onde pela primeira vez vi os efeitos da falta de exercício ao nível dos reflexos.


O Aloxi Bar é propriedade do Zé Matreco, que ao contrário do que o nome indica detesta matraquilhos. Para ele a única mesa onde se devem decidir jogos de bola é a de cabeceira, fiel depositária do pagamento de uma noite de coboiada entre uma concubina com sotaque e um agente da autoridade arbitral e onde este deverá levantar a respectiva factura a fim de pedir reembolso àqueles a quem ficará a dever umas miopias momentâneas durante 90 minutos.


O Ze Matreco é, a titulo de curiosidade, uma personagem bem peculiar, nascido como Itamara dos Reis em Maceió dos Anjos, bem no centro da Selva Amazónica, tendo trocado de sexo após um surto de candidiase vaginal na sua tribo, transmitida por 2 guatemaltecas que andavam na apanha da borracha, ou como é comummente chamada esta actividade nas zonas do interior de Terras de Vera Cruz, viviam do sexo seguro em troca de dinheiro. Com a desflorestação agressiva da grande floresta, a borracha começou a ser escassa e o látex passou a ser utilizado apenas pelos ancião da aldeia, pois assim garantiam uma maior durabilidade do mesmo, algo só alcançável por aqueles que pouco uso lhe davam. Malgrado este factor, a vida tem que ser tocada para a frente, a praga tornou-se incontrolável e Itamara tomou o ônibus em direcção ao sexo forte e o avião em direcção à Europa. Em Portugal abriu o seu boteco a que deu o nome de Aloxi Bar, que lido ao contrário é “Rabixola”. Ao contrário do que o nome possa indicar, este não é uma referência a si, mas sim aos 7 que passaram 4 anos de férias no Hospital de São José após terem sido atropelados pelo 32 da carris, conduzido pelo Zé Matreco durante uma marcha do Orgulho Gay. Ainda hoje ele exibe no seu bar o para brisas do autocarro todo autografado a purpurinas saídas das bem barbeadas bochechas dos acidentados.


Foi assim, aqui neste antro de podridão e falta de limpeza que senti pela primeira vez a falta de reflexos atingir-me violentamente, apesar que não tanto quanto o cálice de iogurte-cerveja que fez da minha cana do nariz um acordeão a ser tocado por um duende a calçar havaianas. Basicamente, estava eu à conversa com o Tó Matreco, que como o nome indica, é filho do Sr. João Coelho, um dos maiores artesãos do país na área do corte manual de pavimento cerâmico, sendo que começou a trabalhar peças de tamanho 1,20m x 1,20m mas que neste momento, por ser vitima de uma retinite pigmentar galopante, apenas produz ervinel para piscinas tamanho 0,25m x 0,25m. Enquanto discutíamos a exequibilidade de uma modalidade desportiva que mesclasse o poder de arremesso da corda de um berimbau com a galhardia picadora de uma seta em direcção a um alvo estampado na rótula de um qualquer assalariado, ressalvando a vantagem de se poder colocar à porta do bar um cartaz a anunciar música étnica ao vivo, ouviu-se um grande alarido vindo do bengaleiro.


Em causa estava a recusa do empregado do bengaleiro em aceitar guardar no seu espaço um andarilho de um idoso de 27 anos, contrapondo este que o propósito do andarilho era o mesmo de uma bengala, apenas com um tamanho mais abrangente, pelo que seria elegível para passar a tarde junto dos casacos, bengalas, kalashnikovs e bolas chinesas que a clientela tinha ali depositado. A meio da discussão foi arremessado um cálice de iogurte-cerveja, que como o nome indica, era uma mistura de leite com chocolate e coca cola. Na verdade eu vi o objecto em voo picado na minha direcção, qual Morimoto Matsuiama a carregar sobre o USS Arizona. Posicionei a boca para ingerir o líquido, mas não estava preparado para o efeito. O que eu pensava que era uma bola rápida, era afinal uma bola curva, que foi como ficou o meu nariz, com mais curvas que uma estrada serrana. Uma vez mais ficou provado que o meu jeito para o desporto era bastante limitado.