quarta-feira, 24 de outubro de 2012
O Condominio
domingo, 7 de outubro de 2012
O Teatro
terça-feira, 10 de abril de 2012
O Troféu
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
O Aniversário
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
O Lema
Ali escondido na escuridão do bunker, onde apenas conseguia enxergar o meu próprio nariz durante cerca de dez minutos, que era a duração da energia solar na estrela fosforescente colada no tecto do edifício, recapitulei o momento do anuncio da decisão à minha esposa, que malgrado ter aceitado muito bem a noticia, me custou três divórcios e outros tantos casamentos com ela, correndo o risco de este número poder aumentar no exacto momento em que ela despertar do seu quarto coma motivado pelo impacto do seu esbelto crânio com o pavimento lustroso da nossa habitação após o seu quarto desmaio relacionado com o facto de eu lhe ter comunicado, também pela quarta vez, a minha famigerada decisão. É certo que poderia já ter optado por lhe comunicar a boa nova quando ela estivesse confortavelmente deitada no nosso leito matrimonial, mas o medo de a decisão de divórcio ser, desta feita, irreversível, impede-me de o fazer e agora apenas me limitarei a entabular a dolorosa conversa quando ela se encontrar com a caniche ao colo, na eterna esperança de a ver prostrada em cima do abominável animal, poupando-me assim a vergonha de ter que percorrer a distancia entre a loja de comida para animais e a minha casa com um pacote de quinze quilos de comida para peixe, pois o bichano ainda não tem o seu “eu” perfeitamente identificado e nos últimos tempos desenvolveu uma paixoneta de adolescente por qualquer animal de guelras e escamas que a minha donzela coloque na tábua de cortar, a fim de preparar o nosso repasto.
Já dizia o meu colega de carteira do 7º ano, do alto de toda a sua sapiência de professor catedrático da universidade do encosta ao balcão taberneiro, que “mente sã e corpo são ajudam a aguentar a alcoolização”. Dizia-o exibindo, com o mesmo orgulho que um militar graduado expõe a sua distinção da Ordem de Torre e Espada, a folha A4 onde um médico de charuto na boca e um dedal de moscatel destilado numas águas furtadas num canto recôndito da Beira Baixa raiana na mão, havia escarrapachado o severo diagnóstico de cirrose terminal, que lhe cortava a direito e sem anestesia os horizontes do futuro, ao ponto de o ter levado a contrair matrimónio aos catorze anos para poder procriar um herdeiro, a quem contava vir um dia a confiar aquele pedaço de papel, já emoldurado, que fazia dele o Casanova das filhas dos empresários do ramo da produção e contrabando de bebidas à base de cereais e legumes excedentes das quotas de produção impostas pela UE, instigadas pelos seus progenitores a trazerem para casa alguém que estaria sempre mais preocupado em lhes deixar todas as suas posses em troca de um mata-bicho hortofrutícola de alto teor etílico, do que em lhes dar a santa machadada nas regalias hereditárias das suas descendentes, sendo que no que tocava à Guerra das Espirituosas, como viria a ser chamada pelas autoridades, um hímen tinha o mesmo valor que um soldado raso na batalha de La Lys.
Na verdade durante a minha juventude nunca entendi o verdadeiro significado da expressão utilizada até à exaustão pelo bom do Meio-Fígado, como era pomposa e carinhosamente tratado por todos aqueles, que como eu, tinham prazer em partilhar com ele uma partida de Malha no Bicho, mesmo considerando que a partir da segunda semana de aulas o famigerado jogo popular foi rebaptizado com o nome de Malha no Meio -Fígado, o que reflectia a afeição que todos nós tínhamos por ele, a ponto de baptizarmos uma das nossas diversões supremas com o seu nome. A verdadeira compreensão da dimensão das palavras dele só me chegou já adulto e quase literato, na corrida a algo mais que a presidência do Meu Clube, algo como um espaço no betão coçado da bancada central, onde pudesse em fim ver ao perto as diatribes do conjunto do meu coração e poder ofender com aproposito toda a dignidade do árbitro da partida.
Para mal dos meus pecados, a devida compreensão do significado da expressão utilizada pelo jovem alcoólatra abateu-se sobre a minha cabeça à mesma velocidade que a calvície, apesar de não ter a mesma relação que esta tinha com a exposição a uma garrafa de vodka, com níveis mais elevados de urânio do que o autocarro de transporte de operários das minas da Urgeiriça ao fim de um dia de trabalho, que havia sido importada da Ucrânia por um siciliano a quem tinha sido adjudicada em concurso público o aluguer da casa de banho de serviço da garagem do nosso prédio, onde ele gere um, muito bem-sucedido, negócio de desmembramento e ocultação de cadáveres. Definitivamente só entendi o erro de análise que havia feito ao adágio do Meio-Fígado após acabar de o adoptar e escrever, como lema de campanha, em 10.000 panfletos artesanais, feitos nas costas de bilhetes do comboio-fantasma que haviam sido adquiridos há uns cinco anos, para proporcionar novas experiências à minha sogra, especialmente a sensação de falecimento após sentir o braço esquerdo dormente e uma leve picada no local onde, na altura, eu pensava existir algum órgão provocador de batimento cardíaco, o que mais tarde se veio a perceber ser um erro de julgamento da minha parte, pois todo o dinheiro investido na diversão apenas resultou num hediondo desgrenhamento capilar no toutiço da idosa, que a transformou na maior atracção do dito comboio-fantasma, sem que contudo eu obtivesse algum lucro fiduciário do acontecimento.
Agora, cometido o enésimo erro da minha vida, restava-me esperar que a elevada taxa de analfabetismo na massa associada do Meu Clube facilitasse a minha subida ao poleiro, até porque eu lá estaria à boca da urna a garantir-lhes que a colocação da cruz no quadrado em frente do meu nome seria a decisão que mais facilmente lhes garantiria o alivio do aperto de pescoço que as minhas mãos lhe estariam a facultar, bastando-lhes que o dito rabisco fosse igual ao que haviam feito no respectivo bilhete de identidade.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
O Clube
Acima de tudo o que me levou a avançar com a candidatura à presidência do Meu Clube foi o simples facto de já não recordar sequer as cores do equipamento do mesmo, pois nos últimos quatro anos, o meu bilhete anual tem sido para um lugar que fica situado por detrás do marcador manual em tabopan infiltrado por humidades e formigas, que a avaliar pelos estragos, serão descendentes das corrosivas térmitas africanas, onde o Sr. Teófilo, rapaz nos seus quarenta e poucos anos, portador de obesidade mórbida e coleccionador de uma vastidão de flagelos de índole física e mental, vai actualizando o resultado dos jogos, muito diligentemente mas com algum atraso motivado pela sua dificuldade de locomoção, que aliada ao facto dos jogadores visitados serem tão prendados técnico-tacticamente quanto um gorila paralítico acabado de importar dos Montes Virunga, faz com que variadas vezes tenha que ficar a actualizar resultados até duas ou três horas após o término dos prélios, o que levou a direcção da agremiação desportiva a instalar um trolley para confecção de cachorros quentes junto ao marcador para que o rapaz se possa ir alimentando durante a empreitada, pois a última coisa que se precisa é de um funcionário que sofra de subnutrição.
Dizem as mentes que fazem do boato uma profissão tão respeitada e admirada quanto um clérigo num bas-fond de alterne, que a velocidade que o Sr. Teófilo aplica na actualização do marcador é exactamente a mesma que ele aplicava nos seus idos anos de futebolista do Meu Clube, onde continua a ser recordado como o maior guarda-redes a sentar os seus jerrycans de celulite, vulgarmente apelidados de nádegas, no banco de suplentes do clube, isto quando o caminho balneário/banco era ainda feito em tempo útil, portanto aquele compreendido entre o apito inicial e o silvo final do árbitro, algo nunca conseguido nos primeiros sete jogos após as festividades do Natal e Ano Novo, por razões nunca explicadas, mas que certamente terão estado na origem da sua proibição de comparecer nos jantares de Natal da equipa.
Apesar da capacidade exibicional da equipa do Meu Clube andar por níveis mais baixos que um termómetro na Sibéria Setentrional, na última temporada o bom do Teófilo viu a sua destreza física e porque não dize-lo, mental, ser colocada à prova por duas vezes, nas quais foi obrigado a alterar a numeração no marcador da minha equipa. Isto sucedeu nas duas vezes em que o adversário chegou à dezena de golos e, visto ele só ter t-shirts até ao número 9, optou por assinalar o algarismo das unidades em si próprio, aproveitando o porte que Deus e vinte e duas tortas de Azeitão por dia lhe deram, e colocar o algarismo das dezenas ao espaço habitado por um casal de cegonhas, que nos tempos áureos da equipa da casa estava reservado para a exposição do número de tentos facturados pelos seus outrora prolíferos atacantes.
A decisão de partir para a candidatura única à presidência do Meu Clube é o lado mais simples da mesma, mais exigente será constituir uma lista, isto tendo em conta que terei que a constituir a partir de um grupo de indivíduos habituais frequentadores de uma comissão de linchamento da minha pessoa, cuja primeira reunião se deu no dia em que, devido ao repentino aparecimento de uma flash-mob no pavimento betuminoso da estrada de acesso ao estádio do Meu Clube, em dia de jogo, fui obrigado a guinar repentinamente a direcção da minha bicicleta, acertando em cheio com a antena do auto-rádio no olho direito de Adelmiro, o sumo-pontifice da nossa equipa na arte de abanar as redes adversárias e último individuo presente na memória colectiva das bancadas a facturar um tento sem ser na sua baliza, já lá vão quase sete anos. Só a rápida acção de um oftalmologista impediu o fim prematuro da carreira desportiva do atacante, mesmo que actualmente ele seja obrigado a entrar em campo com óculos de mergulho graduados. Pior fiquei eu que nunca mais consegui sintonizar o meu auto-radio em FM, estando desde então confinado a rádios de qualidade mais que duvidosa em emissão AM. Naquele dia, toda a massa adepta me considerou culpado pela goleada sofrida pela equipa da terra, pois desfalquei-a do seu melhor elemento, ou pelo menos, daquele que menos erros comete durante o exercício da sua função de avançado, uma vez que só muito esporadicamente a sua intervenção na partida ultrapassa a escolha de campo antes do apito inicial, tal é a falta de caudal ofensivo da turma da casa.
A decisão é difícil, mas para reduzir o número de candidatos a integrar a lista, tomei a decisão mais complicada do meu ainda curto reinado de candidato e exclui logo à partida todos os responsáveis pelo arremesso de archotes em chamas para dentro da casa dos meus vizinhos do rés-do-chão. Estes seriam destinados ao meu lar, mas o latido voraz, assassino e intimidador da caniche da minha esposa fez a turba recuar de medo, pelo que os ditos archotes foram lançados a tal distância que a força de deslocamento deles foi incapaz de superar a força da gravidade e o que chegou a ser visto a caminho do terceiro andar em que resido, foi posteriormente recolhido pelos bombeiros sapadores no incinerado rés-do-chão dos meus colegas de condomínio.
sábado, 25 de junho de 2011
Os Exercicios
Não sou um tipo muito dado a exercícios para além do habitual abrir e fechar de boca solidário em frente ao aquário da sala, apesar de estar habituado a correr em dias de maior ventania, sendo que nem sempre corro para o lado que pretendo. Digamos que a fronteira da força de vontade de alguém que, pesa sessenta quilos nos dias em que acorda com a neurose do coleccionismo de cascalho, deve andar à volta de rajadas de quarenta a cinquenta quilómetros/hora, isto, claro enquanto as pernas não vergam à força dos quinze quilos de calhaus acumulados nos bolsos. É que a força de vontade de um indivíduo estatelado no passeio na posição de frango assado só aparece esporadicamente quando um jardineiro esquece a enxada com o cabo em posição erecta, como se houvesse visto um sacho em ferro galvanizado e cromado, bem no meio da calçada. Em todo o resto do caminho resta-nos esperar que aquele workshop intensivo de pombo-correio na Feira do Campo do Cachopo tenha valido a pena para que se possa regressar a casa. Já que mais não seja, o anel identificativo na pata vai ajudar muito no momento de pedir instruções.
Como já me havia avisado o veterinário da bichana da minha mulher, ou como diz na porta dele, o Sr. Ginecologista, todo o exercício másculo não se deve estar dependente de três factores tão subjectivos como são a força da natureza, a parca memória do peixe comprado na Loja da Ana Teresa ou a posição de missionário, que essa está destinada à reza. Segundo ele, no futuro eu poderia vir a sofrer de atrofia muscular, para além da que já se manifesta a nível cerebral, especialmente nos primeiros 5 minutos da visita ao Lar para ver a minha sogra, até porque nos restantes 2 minutos em que me aguento no quarto já só estou a pensar se a velha iria espumar muito da boca se, acidentalmente, uma das minhas mãos lhe colocasse uma caixa inteira de Lorazepam na boca, ao mesmo tempo que a outra a obrigava a engolir o apetitoso farnel de fabrico laboratorial. Na verdade, ela já poucas vezes me dirige a palavra e eu noto que a nossa relação não é a mesma desde que lhe ofereci, pelos anos, o livro “Anita e a Injecção Letal”.
Ainda na abalizada e muito respeitosa opinião do homem a quem eu deixo metade do meu subsidio para me garantir que eu não ando a brincar em parques de diversões com baloiços enferrujados, a atrofia muscular poderia vir a resultar em momentâneas perdas de força nos membros inferiores e limitações ao nível de reflexologia, dando-me de barato uma bestial desculpa para utilizar todas as manhãs em que a minha donzela me encontra prostrado de nariz e pêlos do peito no mármore do patamar do nosso andar, após uma bela noite regada com o mais carrascão néctar de cereja e morangos, mesmo apesar de ela nunca acreditar, até porque os dentes tingidos a vermelho são os mais perfeitos delatores de uma noite de borga no Aloxi Bar, local onde experienciei os melhores momentos de atrofia muscular a nível de membros inferiores e onde pela primeira vez vi os efeitos da falta de exercício ao nível dos reflexos.
O Aloxi Bar é propriedade do Zé Matreco, que ao contrário do que o nome indica detesta matraquilhos. Para ele a única mesa onde se devem decidir jogos de bola é a de cabeceira, fiel depositária do pagamento de uma noite de coboiada entre uma concubina com sotaque e um agente da autoridade arbitral e onde este deverá levantar a respectiva factura a fim de pedir reembolso àqueles a quem ficará a dever umas miopias momentâneas durante 90 minutos.
O Ze Matreco é, a titulo de curiosidade, uma personagem bem peculiar, nascido como Itamara dos Reis em Maceió dos Anjos, bem no centro da Selva Amazónica, tendo trocado de sexo após um surto de candidiase vaginal na sua tribo, transmitida por 2 guatemaltecas que andavam na apanha da borracha, ou como é comummente chamada esta actividade nas zonas do interior de Terras de Vera Cruz, viviam do sexo seguro em troca de dinheiro. Com a desflorestação agressiva da grande floresta, a borracha começou a ser escassa e o látex passou a ser utilizado apenas pelos ancião da aldeia, pois assim garantiam uma maior durabilidade do mesmo, algo só alcançável por aqueles que pouco uso lhe davam. Malgrado este factor, a vida tem que ser tocada para a frente, a praga tornou-se incontrolável e Itamara tomou o ônibus em direcção ao sexo forte e o avião em direcção à Europa. Em Portugal abriu o seu boteco a que deu o nome de Aloxi Bar, que lido ao contrário é “Rabixola”. Ao contrário do que o nome possa indicar, este não é uma referência a si, mas sim aos 7 que passaram 4 anos de férias no Hospital de São José após terem sido atropelados pelo 32 da carris, conduzido pelo Zé Matreco durante uma marcha do Orgulho Gay. Ainda hoje ele exibe no seu bar o para brisas do autocarro todo autografado a purpurinas saídas das bem barbeadas bochechas dos acidentados.
Foi assim, aqui neste antro de podridão e falta de limpeza que senti pela primeira vez a falta de reflexos atingir-me violentamente, apesar que não tanto quanto o cálice de iogurte-cerveja que fez da minha cana do nariz um acordeão a ser tocado por um duende a calçar havaianas. Basicamente, estava eu à conversa com o Tó Matreco, que como o nome indica, é filho do Sr. João Coelho, um dos maiores artesãos do país na área do corte manual de pavimento cerâmico, sendo que começou a trabalhar peças de tamanho 1,20m x 1,20m mas que neste momento, por ser vitima de uma retinite pigmentar galopante, apenas produz ervinel para piscinas tamanho 0,25m x 0,25m. Enquanto discutíamos a exequibilidade de uma modalidade desportiva que mesclasse o poder de arremesso da corda de um berimbau com a galhardia picadora de uma seta em direcção a um alvo estampado na rótula de um qualquer assalariado, ressalvando a vantagem de se poder colocar à porta do bar um cartaz a anunciar música étnica ao vivo, ouviu-se um grande alarido vindo do bengaleiro.
Em causa estava a recusa do empregado do bengaleiro em aceitar guardar no seu espaço um andarilho de um idoso de 27 anos, contrapondo este que o propósito do andarilho era o mesmo de uma bengala, apenas com um tamanho mais abrangente, pelo que seria elegível para passar a tarde junto dos casacos, bengalas, kalashnikovs e bolas chinesas que a clientela tinha ali depositado. A meio da discussão foi arremessado um cálice de iogurte-cerveja, que como o nome indica, era uma mistura de leite com chocolate e coca cola. Na verdade eu vi o objecto em voo picado na minha direcção, qual Morimoto Matsuiama a carregar sobre o USS Arizona. Posicionei a boca para ingerir o líquido, mas não estava preparado para o efeito. O que eu pensava que era uma bola rápida, era afinal uma bola curva, que foi como ficou o meu nariz, com mais curvas que uma estrada serrana. Uma vez mais ficou provado que o meu jeito para o desporto era bastante limitado.